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segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Twin Peaks

De volta a ativa, até me cansar disso aqui.


Memórias, memórias são engraçadas. Nós armazenamos alguns momentos na nossa mente e nunca sabemos se as coisas aconteceram mesmo daquele jeito ou se estamos ressignificando e retrabalhando os fatos de acordo com o momento atual. Memória é a incógnita que se experimenta e vive.

Começo da década de 1990 e fim do otimismo colorido e cafona que os anos oitenta trouxeram. O grunge estava para estourar, aqueles sujos, maltrapilhos, quase neo-punks.

Tinha 14 ou 15 anos. Um mundo novo se descortinava para mim, um mundo de novas sensações, novas experiências, de novos prazeres estéticos. Aos poucos eu ia largando meu sectarismo punk e me permitia conhecer novas coisas que eu teria rechaçado um ou dois anos antes. Barulhos e melodias, canções de amor.

Também neste momento estava eu descobrindo o Cinema, assim mesmo, com “C” maiúsculo. Já tivera contato com uma ou outra coisa de Fellini, de Woody Allen, mas aquilo ainda não tinha me cativado perenemente. Gostava, mas um “gostar” chocho. Talvez, falando a partir de hoje (memória, lembra?), um ponto de inflexão tenha sido, justamente, o crime da década de 1990. Ou melhor, os crimes!!

Crime 1) a linda, encantadora e muito querida, Laura Palmer, aparece morta, enrolada em plástico num lago de Twin Peaks.

Crime 2) A Globo transmite a série no Brasil. Faz com David Lynch o que o assassino de Palmer fizera com ela. Retalha, mutila, estupra a série.

Sobre os crimes são só estas frases. Não escreverei nada além. Mas sobre Twin Peaks, ou melhor, sobre mim, algumas linhas a mais são necessárias.

A série passava depois do Fantástico e já era, de origem Lynchiana, esquisita, estranha e perturbadora. Com a edição made in Brazil ficou ininteligível.

Na minha doce pretensão eu conseguiria entender o que realmente se passou no interiorzão dos EUA. A Globo não me deixou entender (claro que Lynch colaborou para isso. Pretensão demais entender Lynch!)

Ontem tive acesso, ganhei de presente, as duas temporadas de Twin Peaks, na íntegra. Queria (e não queria ao mesmo tempo) ir logo pra casa pra rever esta série que marcou minha cabeça. Memórias, lembranças, confusões de um adolescente, tudo isso está representado pelo mistério do assassinato de Laura Palmer.

Enfim, fui pra casa insano, querendo rever e reviver. Impressionante! Tanto tempo depois – e mesmo sabendo quem foi o assassino de Laura Palmer – e a série ainda mantêm seu encanto, encanta o espectador e o prende.

Rever, 17 anos depois, foi uma experiência única. Vi só os dois primeiros episódios, por enquanto. Mas posso afirmar e reafirmar que Twin Peaks é um marco, pelo menos pra mim, e – como acontece com os clássicos - mantêm sua atualidade e mesmo melhora com o tempo.

Depois de Twin Peaks, o mundo do imponderável, das insanidades, do onírico se tornou cada dia mais presente em minha vida. Agradeço a Lynch, a Buñuel, a Escher....

E, claro, agradeço, e muito, ao presente recebido, que permitiu reviver estes fatos, estes momentos.

Grazie, bella bambina, Grazie!!!!


*ah... pra não perder o foco, e nem meu modos operandi, a sugestão de música pra este texto, pra esta série, não poderia ser outra que não Nirvana: Rape Me.

há tempos

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